Sociedade Portuguesa de Microbiologia

Portuguese Society of Microbiology

À Conversa com Teresa Caldeira e António Candeias, no laboratório HERCULES

Por ocasião do MicroBiotec’2015, em Évora, quisemos conhecer melhor uma das anfitriãs do Congresso, Teresa Caldeira, investigadora no laboratório HERCULES, que faz da arte e do património o foco da sua investigação em Microbiologia. Porém, fazendo jus à expressão de que as “palavras são como as cerejas”, aliada a esta conversa, fizemos uma visita guiada ao HERCULES e à sua história, conduzida pelo seu responsável, António Candeias.

Évora, 11 de Dezembro de 2015

Raquel Sá-Leão e Célia Manaia

Quando foi criado o laboratório HERCULES e como tem vindo a ser desenvolvido?

Em 2009 na sequência da candidatura a um financiamento Europeu, as EEA grants. Este projeto de 1 milhão de euros permitiu-nos montar a estrutura que hoje aqui vemos. Tivemos que adaptar o espaço, pois havia partes do edifício que estavam abandonadas; outras eram armazéns e salas de aulas. Na altura já trabalhávamos com o Laboratório José de Figueiredo (Laboratório da Direção Geral do Património Cultural) e usávamos algumas das suas valências. Portanto, a opção foi a de comprar alguns equipamentos que, por um lado, nos permitissem desenvolver áreas específicas e, por outro, fossem complementares aos existentes no Laboratório José de Figueiredo. Alguns equipamentos comprados nessa altura ainda são essenciais para aquilo que hoje fazemos no laboratório.

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Microscópio eletrónico de varrimento- Corte estratigráfico e mapa de composição elementar.

Passado menos de um ano tivemos outro projeto que nos permitiu montar um laboratório móvel. Temos uma série de equipamentos portáteis que nos permitem fazer análises in situ onde quer que seja necessário, por exemplo, num museu, monumento ou campo arqueológico.

Neste momento a infraestrutura analítica está um pouco acima de 2,2 milhões de euros. Obviamente que os equipamentos são importantes, mas as pessoas também o são. Inicialmente éramos doze doutorados. Agora somos trinta: catorze investigadores com posições permanentes e dezasseis pós-docs. E temos dezoito estudantes de doutoramento. Somos um único grupo que integra quatro linhas de investigação e que tem quatro coordenadores de linha. As linhas temáticas são: ciência para as artes, ciência para a conservação e restauro, ciência para o conhecimento das civilizações do passado, e inovação e desenvolvimento em património cultural. É nesta última linha que a área da Microbiologia está mais desenvolvida.

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Amostragem de manuscritos em pergaminho.

 

Coordenamos um mestrado Erasmus Mundus em ciência de materiais arqueológicos, com a Universidade de Sapienza em Roma, em Itália e Universidade de Tessalónica na Grécia. Os alunos são cerca de 20 e passam o primeiro semestre em Évora, o segundo na Grécia, e o terceiro em Roma. Fazem a tese de mestrado durante nove meses em qualquer um destes polos ou centros onde possam ter orientadores de um destes polos. Os alunos da primeira edição acabaram agora as teses. As novas teses começam em fevereiro.

O mestrado Erasmus Mundus foi criado para permitir a alunos com backgrounds diferentes desenvolver uma linguagem comum. Esta multidisciplinaridade tem sido muito interessante no nosso grupo porque, pessoas que vêm da parte da Arqueologia ou mesmo da Arquitetura, conseguem realizar teses com uma componente analítica muito forte que é uma das nossas apostas. Da mesma forma, conseguimos que alunos da Ciências consigam integrar muito bem a componente da Arqueologia, História e História da Arte.

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Amostragem de mascara Egípcia.

Qual é o background dos alunos de doutoramento e dos investigadores de pós-doutoramento do vosso laboratório?

A equipa é multidisciplinar: temos nove Químicos, uma Física, seis Bioquímicos, dois Engenheiros de Materiais, quatro Geólogos e um Web Designer. Temos pessoas de História da Arte, doutorados em Conservação/Restauração e especialistas em Ciências da Conservação.

A criação do HERCULES em 2009 fez redirecionar os vossos interesses de investigação…

Sim, no fundo nós continuamos a fazer aquilo que fazíamos antes, mas agora aplicado a coisas que são verdadeiramente fascinantes.

Há aqui um sentido muito prático daquilo que se faz, porque quando nós estamos a fazer estudos para apoiar intervenções de conservação e restauro, é algo que tem um efeito muito concreto.

Em termos de inovação e desenvolvimento a parte mais importante do Laboratório é a parte das ciências biológicas e dos materiais. Esperamos que seja possível criar algo inovador: novas ferramentas e novas metodologias que possam dar resposta às necessidades reais do setor.

No MICROBIOTEC assistimos a uma apresentação de um estudante do vosso grupo que falou dum trabalho em que fizeram o diagnóstico microbiológico responsável pela degradação de uma pintura. Depois de terem o diagnóstico o que fazem a seguir?

Quando são empresas de conservação e restauro que nos pedem para fazer esse tipo de trabalho o que nos interessa saber é que tipo de microrganismos estão presentes para saber que tipo de biocidas devem ser utilizados. É muito diferente se for uma alga, um fungo ou uma bactéria.

Por exemplo na Fundação Eugénio de Almeida existem umas pinturas murais que são do século XVI cuja intervenção recente se baseou em estudos feitos por nós. Os biocidas aplicados foram os que nós testámos no laboratório e que vimos que seriam os mais eficientes para ser aplicados naquelas pinturas sem haver o risco de alterar os materiais.

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Pintura mural.

E se víssemos agora alguns exemplos do que fazem?

Temos estudos muito variados, desde estudos centrados na área do património como a investigação de paleodietas, de materiais arqueológicos e artísticos, estudos de proveniência de artefactos como cerâmicas ou marfins, passando por estudos em áreas afins como a análise da proveniência e certificação de azeites, o estudo da alteração de cor do calcário azul da Estremadura ou degradação da pedra ou ainda das crostas oceânicas.

Por exemplo, temos um projeto com as bibliotecas do Vaticano e de Troyes. A ideia é comparar as iluminuras dos manuscritos de Cister de lá com os que existem em Alcobaça. Pretende-se perceber se a iconografia estilística e os materiais utilizados são semelhantes.

Como surgem este projetos e ideias de investigação?

Há ideias que são os historiadores, os arqueólogos ou os conservadores que as trazem. Outras que somos nós que queremos desenvolver. E há também muitas colaborações com outras universidades ou outros centros de investigação. Por exemplo, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, entre outros.

Neste momento o Laboratório HERCULES é a maior infraestrutura do género em Portugal e a nível internacional é uma das maiores. Isso tem sido importante para estabelecer contactos em Portugal e no estrangeiro, onde temos neste momento um posicionamento muito interessante.

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Têxteis medievais.

Quem visita este espaço percebe que há um cuidado especial com imagem…

A imagem e a divulgação não são algo acessório. Temos sistematicamente projetos de divulgação e de interação com a sociedade. Por exemplo, todos os meses trazemos aqui crianças do pré-escolar para uma atividade de fazer tintas e produzir pigmentos. Temos também projetos com a universidade da terceira idade e vamos dar início a um projeto de Ciência e Arte com a Câmara Municipal de Évora, junto das escolas secundárias.

E têm financiamento para as iniciativas de divulgação?

Em geral temos tido financiamento, mas também há muito boa-vontade.

Houve um programa na TVI24, “A máquina do tempo” sobre ciência e património. Tratou-se de uma série documental de dezanove episódios de meia-hora que fomos nós que montámos. Foi um projeto que submetemos ao COMPETE para divulgação científica. Foi uma experiência engraçada desenvolvida em parceria com o jornalista Paulo Bastos da TVI. A ideia era mostrar a ciência aplicada ao património. Foi gratificante.

Como é que se gerem tantas coisas e tantos interesses no dia-a-dia?

Trabalhando muito de manhã à noite e dormindo pouco.

A implementação inicial de uma infraestrutura exige um esforço muito grande e uma enorme dedicação. É necessário muito trabalho e também muito gosto.

Chegámos à área da Microbiologia…

Aqui neste laboratório procuramos dar resposta às obras que estão em degradação e que precisam de soluções urgentes. Em particular, identificamos e caraterizamos a microbiota e procuramos soluções para mitigar a sua ação.

Uma das componentes da nossa investigação centra-se no desenvolvimento de novos biocidas para o património, porque muitos dos que existem não são específicos, alteram os pigmentos ou têm toxicidade elevada. Como temos estudado várias obras de arte, temos uma coleção de microrganismos que sabemos que são bio-deteriorogénicos de determinados bens patrimoniais. Usamos estes microrganismos para nos ajudar a direcionar na produção de novos biocidas para desenvolver soluções adequadas aos bens culturais que queremos preservar. Estes biocidas que desenvolvemos têm a vantagem de não serem nocivos para o ser humano e serem biodegradáveis.

Isso não é um problema? O facto de serem biodegradáveis?

Para serem definitivos tinham de ser muito agressivos. A monitorização e a aplicação regulares são fundamentais.

Estão portanto a tentar produzir um biocida para o mercado?

Sim estamos. Tivemos recentemente um projeto aprovado, o HIT3CH (HERCULES Interface for Technology Transfer and Teamming in Cultural Heritage), que visa ser uma interface de transferência de tecnologia do que fazemos no HERCULES para aplicações comerciais.

Um biocida desenvolvido com base nas vossas coleções seria útil noutros países?

Sim, os fungos responsáveis pela degradação do património são mais ou menos os mesmos e típicos de determinadas matrizes. Um conjunto de microrganismos pode ser mais específico de determinado tipo de materiais orgânicos que estão presentes em determinadas obras de arte, mas há alguns que são gerais.

Outra área em que estamos a investir é a do desenvolvimento de sondas com o objetivo de produzir um kit que permita a pessoas da área da conservação e restauro, que não sejam especialistas em microbiologia, avaliarem que tipo de organismos estão presentes numa obra e que tipo de soluções podem utilizar naquela situação concreta.

Que tipo de sondas estão a desenvolver?

Estamos a desenvolver sondas para fungos e bactérias. Numa primeira abordagem será para fazer distinção entre fungos, algas e bactérias. Depois, se houver interesse, pode ser para detectar um tipo específico de microrganismo deteriorogénico, por exemplo fungos celulolíticos para bibliotecas e arquivos.

Há ainda outra área em que estamos a apostar que tem a ver com a pintura de cavalete. Nas pinturas de cavalete utilizavam-se ligandos proteicos. O tipo de ligandos proteicos utilizados dependia da oficinas de produção das obras de arte. É relativamente fácil identificar se há proteínas ou não nas pinturas. Mas identificar a origem das proteínas é complicado. Estamos a utilizar anticorpos monoclonais para fazer a identificação dessas proteínas. Estamos a produzir anticorpos monoclonais aqui no laboratório que nos permitem distinguir se o colagénio é de coelho, de carneiro ou de outro animal.

E porque é que isso é importante?

É importante ao nível de conservação e restauro, para que se possam utilizar materiais compatíveis, e também para atribuir as obras de arte a uma determinada escola ou oficina.

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Micro-FTIR imaging (esquerda) e Corte estratigráfico observado em microscópio ótico (direita).

A origem do vosso laboratório está relacionada com a sua localização geográfica (Évora, património mundial da UNESCO)?

Évora é, claro, uma cidade única para este tipo de estudos e a criação do Laboratório HERCULES em Évora beneficiou não só deste enquadramento, como também do facto da região Alentejo apresentar claras condições para o desenvolvimento da investigação centrada no património, que aliás foi considerado um dos pilares da Estratégia de Especialização Inteligente da Região. Acresceu também a circunstância de um grupo de, então, jovens investigadores da Universidade de Évora apostarem neste campo saindo da sua zona de conforto, autonomizando-se na sua investigação, para dar início a esta aventura. De realçar que embora o Laboratório esteja centrado em Évora e tenha uma parceria muito forte com a Direção Regional de Cultura do Alentejo e o Museu de Évora, se posiciona como uma unidade de investigação nacional e, neste momento, fruto de uma parceria com a Direção Geral do património Cultural, assegura a coordenação científica do Laboratório de José Figueiredo, que é o Laboratório do Estado para a Conservação de património artístico. Com este laboratório e com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil constitui ainda a infraestrutura IPERION-CH.pt que é uma das infraestruturas do Roteiro Nacional de Infraestruturas de Interesse Estratégico.

A Teresa é licenciada em Físico-Química. Como é que chegou à microbiologia?

Eu fui para Físico-Química porque quando andava no 12º ano não sabia se queria ir para Física, para Química ou para Biologia. Então tirei Físico-Química. Vim para o departamento de Química da Universidade de Évora como assistente estagiária em 1992 e dentro da área da Química comecei a dedicar-me mais à área da Biotecnologia. Fiz um mestrado na área da Biotecnologia e no doutoramento também acabei por enveredar por esta área. Mas ainda hoje tenho dúvidas sobre aquilo que gosto mais. Duma coisa estou certa, gostei de fazer este percurso e considero um privilégio poder desenvolver o meu trabalho nesta área.

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This entry was posted on 23/05/2016 by in Magazine SPM and tagged .

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