Sociedade Portuguesa de Microbiologia

Portuguese Society of Microbiology

À conversa com Margarida Saraiva

Foi num edifício recuperado, bem no centro do Porto, nas actuais instalações do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA, IP), que Margarida Saraiva nos recebeu para contar como se faz da Microbiologia profissão. Mas foram muitos mais os rumos que a conversa levou. Revelou-nos como se troca a matemática pelo prazer de estar num laboratório, como se faz de uma oportunidade a vocação de uma vida e como é bom trabalhar com uma grande equipa.

Qual a missão do Instituto Nacional de Saúde do Doutor Ricardo Jorge (INSA) e do serviço que integra?

O INSA tem por missão contribuir para ganhos em saúde pública, através da investigação e desenvolvimento tecnológico, da investigação epidemiológica em serviços de saúde, da garantia da avaliação externa da qualidade laboratorial, da difusão de cultura científica, do fomento da capacitação e formação e ainda através de assegurar a prestação de serviços nos referidos domínios. A missão do INSA é cumprida pelos diversos departamentos científicos: o Departamento de Alimentação e Nutrição (DAN), onde eu trabalho, o de Doenças Infecciosas, o de Saúde Ambiental, o de Epidemiologia, de Promoção da Saúde e Prevenção de Doenças Não Transmissíveis e o de Genética Humana. Os Departamentos são nacionais e dividem-se em Unidades localizadas em Lisboa e no Porto. Eu trabalho na Unidade de Referência do DAN e há ainda a Unidade de Investigação e Desenvolvimento e a de Observação e Vigilância. Na Unidade de Referência incluem-se os Laboratórios de Química e de Microbiologia, no Porto e em Lisboa e também o Laboratório de Materiais de Referência. Eu neste momento sou responsável pela Unidade de Referência e sou também responsável pelo Laboratório de Microbiologia no Porto.
E o que é o Laboratório de Materiais de Referência?
O Laboratório de Materiais de Referência foi criado para produzir materiais de referência, em consonância com o conceito descrito no Vocabulário Internacional de Metrologia “um material, suficientemente homogéneo e estável em determinadas propriedades, que foi preparado para uma utilização prevista numa medição ou para o exame de propriedades nominais” usualmente utilizado para controlar a fiabilidade de um instrumento de medição ou a justeza de uma medição. O Laboratório dispõe de um Cromatógrafo de Líquidos de Alta Resolução acoplado a
Espectrofotómetro de Plasma Induzido com Detector de Massas (HPLC-ICP-MS). Este equipamento é também um auxiliar crucial no desenvolvimento de uma linha de investigação de nutrição dedicada à especiação química. Esta linha enquadra o estudo dos mecanismos moleculares envolvidos na interacção alimentação/saúde/doença através da identificação e quantificação das diferentes espécies dos elementos químicos (ex.: Selénio, Arsénio, Crómio, Mercúrio), que existem em concentrações vestigiais ( No domínio dos contaminantes químicos, o laboratório desenvolve competências únicas no País. Estas capacidades foram desenvolvidas inicialmente para a análise de arsénio e das suas espécies químicas de diferente toxicidade como o arsénio inorgânico e a arsenobetaina Esta espécies podem estar presentes nos alimentos importando por isso distinguir as espécies tóxicas das de toxicidade não revelada. O laboratório vem assim responder a um conjunto de necessidades da indústria e da saúde pública.

???????????????????????????????
O Departamento de Alimentação e Nutrição, tem também investigação?
Sim, temos três unidades, de Investigação e Desenvolvimento, de Observação e Vigilância e outra de Referência, que é a que tem os laboratórios.
É inevitável haver entrecruzamento entre estas unidades, ao nível de pessoas, dos equipamentos, dos objectos de estudo. Portanto, a distinção entre um e outro é um pouco ténue… As pessoas que estejam mais na investigação têm projectos e não têm laboratório. No entanto, fazem as análises nestes laboratórios, as coisas interligam-se, não são separadas. Por exemplo, aqui no Porto, temos laboratórios e não temos uma Unidade de Investigação, mas temos bolseiros, temos áreas de investigação e temos projectos em desenvolvimento.

Como chegou à licenciatura em Ciências Farmacêuticas e depois até ao INSA?
É muito esquisito (risos)… Nunca pensei vir para esta área.
A minha área é de Ciências Farmacêuticas – Análises Químico Biológicas.
Os meus pais tinham um laboratório de análises e uma farmácia. Mas eu sempre pensei em ir para matemática. Quando passei para o 7º ano, actual 11º, vim para o Porto. As minhas irmãs vinham fazer o ano propedêutico e, já que vinham as duas, eu vim também. Cheguei ao liceu Rainha Santa Isabel para fazer o 11º ano e comecei a sentir imensas saudades do laboratório.
Naquela altura o laboratório era a nossa casa, era um laboratório muito químico, onde se faziam soluções… espectrometria… e eu gostava daquilo. Fazia secretariado… e, ajudando, brincava com aquelas coisas.
Portanto, quando vim para cá e comecei a sentir saudades do laboratório pensei “eu nunca irei para matemática”. A mim faz-me muita falta o laboratório… É o que eu gosto de fazer! Resolvi mudar. No ano seguinte fiz o ano propedêutico, já na área de Biologia e decidi candidatar-me a Farmácia. Tirei o curso de Ciências Farmacêuticas, ramo análises Químico- Biológicas e estagiei no Hospital Maria Pia.
Entretanto tinha começado a namorar e não me agradava voltar para Lamego. Planeávamos fazer vida no Porto.
Comecei a ver onde podia concorrer. Consegui emprego no laboratório do Hospital de Penafiel, como tarefeira durante um ano. Mas ser tarefeira era trabalho precário e eu tinha que arranjar qualquer coisa mais estável.
Entretanto abriram estágios para técnico superior de saúde – ramo de laboratório, e eu concorri. Havia quatro vagas para o INSA no Porto e eu fiquei. E então vim para o Instituto. Fiquei muito triste quando soube que no INSA o estágio de técnico superior de saúde era na área clínica e ambiental, pois águas e alimentos era coisa que não me interessava… Mas teria que ser, na altura não havia possibilidade de fazer o estágio em Hospitais aqui no Porto.
A verdade é que quando uma pessoa se dedica às coisas começa a gostar. Se há coisa que eu gosto é de estudar e dediquei-me quanto pude. Quando cheguei ao fim do estágio propuseram-me trabalhar em Microbiologia de Alimentos e de Águas. Como eu gostava muito de microbiologia aceitei. Dediquei-me tanto que quando saí das Águas tive pena. Depois fiquei só nos Alimentos. E agora já não sei fazer outra coisa. Já seria subaproveitada em outros ramos. Fiquei mesmo a gostar!
Em que ano veio para o INSA?
Em 1988. Nessa altura fiz dois anos de estágio em que percorri todos os laboratórios do Instituto. Foi uma época óptima, porque aprendi imenso e fiquei a conhecer outras realidades laboratoriais e pessoas extraordinárias, que foram muito úteis para o meu crescimento na forma como me ensinaram a abordar novos conhecimentos e a questioná-los. É uma coisa que quem vai só para um sítio não tem…
Eu já tinha uma certa experiência de laboratório e tentava sempre saber os “porquês”. Queria perceber porque é que se fazia de outra maneira diferente da que conhecia, e dizia o que pensava.
Os meus colegas sempre aceitaram esse meu lado interventivo e o facto de eu fazer muitas perguntas. Senti-me aqui muito bem recebida, muito acarinhada. Tive muita sorte com as pessoas com quem lido e sempre lidei aqui. Às vezes questiono de mais e isso pode ser complicado, mas aqui sempre aceitaram bem isso.

???????????????????????????????
Quantas pessoas tem a seu cargo?
Aqui no laboratório são 10 pessoas, na Unidade de Referência nem sei no total quantas são, mas são muitas…É lógico que nos outros laboratórios eu comunico com os responsáveis de laboratório e um pouco menos com cada pessoa.
Fazemos videoconferência com Lisboa muitas vezes, falamos muito ao telefone, temos telefone directo. Ainda hoje estivemos em videoconferência com as colegas de Lisboa. Portanto, temos uma rotina em que através das tecnologias actuais é fácil estarmos em contacto.
Também facilita o facto de a instituição ter uma orgânica de serviços partilhados. Temos o mesmo aprovisionamento, o mesmo gabinete de formação, os mesmos núcleos de apoio. A pessoa que trata da formação centraliza tudo naquele núcleo. Depois, cada laboratório tem um responsável da qualidade, um responsável técnico… Tentamos coordenar-nos bem. Para nós é uma mais valia estarmos juntos (Porto e Lisboa). Quando as pessoas conversam, trocam ideias e são abertas à mudança é muito fácil trabalhar.
Qual o perfil de formação das pessoas que trabalham no grupo?
Temos Biólogas, Engenheiras Agrónomas, Engenheiras Alimentares, Químicas, Técnicas de Diagnóstico e Terapêutica, Farmacêuticas…
Só mulheres… (risos)
Nos laboratórios do Departamento só temos um homem, cá no Porto (risos).

No laboratório de microbiologia, quais são as vossas competências? O que fazem?
A nossa competência principal ao nível de prestação de serviços laboratoriais é ser referência na área dos estudos epidemiológicos laboratoriais das toxinfecções alimentares. Temos uma grande gama de agentes toxinfectantes que pesquisamos. Os projectos de investigação que temos em microbiologia enquadram-se nesta área. Felizmente, os toxinfectantes e as toxinfecções alimentares não nos dão suficiente trabalho de rotina. Na verdade, trabalhamos sobretudo em análise de vigilância em unidades de alimentação, e no apoio a indústrias.

Estamos a falar de que agentes?
Salmonella, Campylobacter, Yersinia, Vibrio, Aeromonas, Shigella, Listeria, Escherichia coli verotoxigénicos, Clostridium botulinum entre vários outros, e até vírus.
Para detecção vírus, estamos neste momento a montar a técnica, a norma saiu acho que já foi este ano e estamos a prever ter esta metodologia implementada já no próximo ano.

???????????????????????????????
Que vírus é que estão a implementar?
O norovírus por ser um dos agentes mais comuns em toxinfecções alimentares.

E os parasitas?
Os parasitas são analisados no laboratório de parasitologia do Departamento de Doenças Infecciosas, que está a fazer a parte alimentar.
Fale-nos um pouco da vossa actividade junto dos vossos interlocutores
Normalmente, temos contratos com empresas, hospitais, entidades oficiais, administração pública. Pedem-nos para fazermos vigilância. Fazemos um protocolo com eles. Marcamos uma periodicidade de visitas. Normalmente numa primeira visita, fazemos uma avaliação das instalações e verificação das condições de higiene e sempre que lá vamos, na periodicidade acordada, efectuamos uma avaliação da qualidade microbiológica dos alimentos produzidos nessa altura e uma avaliação da higiene de materiais em contacto com géneros alimentícios. Quem seleciona os locais e produtos a amostrar somos nós e escolhemos sempre os que nos parecem mais passíveis de estar contaminados. Portanto, tentamos sempre ver os produtos obtidos nas piores condições. Se estiver bem o alimento que está nas piores condições, também estará nas outras. Se houver algum problema damos os resultados e na vez seguinte vemos quais foram as medidas tomadas para o corrigir.
Muitas vezes confunde-se a vigilância com controlo de boas práticas de higiene.
No HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Points) faz-se a análise de perigos e o controlo de pontos críticos para se ver se o sistema está a funcionar ou não. Isso é da responsabilidade das empresas de restauração colectiva. Quem contrata os serviços destas empresas deve fazer vigilância para verificar se o sistema está bem implementado. Às vezes confunde-se uma coisa com outra, mas são diferentes. A vigilância deve ser efectuada por uma entidade diferente da que faz a análise dos pontos críticos. A não ser assim, há conflito de interesses, mas quem não está dentro da área da segurança alimentar pode pensar que está a pagar dois serviços.
O INSA é um laboratório do Estado, mas há muitos laboratórios privados que são acreditados e podem fazer o mesmo. Não há concorrência?
São realidades e objectivos totalmente diferentes! É impossível ser igual. As pessoas muitas vezes não se apercebem das vantagens que têm em recorrer ao INSA.
É lógico que há trabalho que é igual e que se for bem feito é o mesmo em qualquer lugar. Mas no trabalho diário temos sempre como objectivo ganhos em saúde pública o que nos leva a caracterizar e tipificar as estirpes isoladas, e a pesquisar e caracterizar estirpes interferentes.
Analisamos qualquer situação sempre com o mais ínfimo pormenor. Quando é um caso de uma toxinfecção fazemos sempre a norma de referência e métodos rápidos, pois achamos que os dois juntos dão um resultado mais fiável. Quem contrata o INSA, ganha um parceiro na sua equipa que estuda profundamente, actualiza os conhecimentos na área, utiliza técnicas com elevada sensibilidade e estará sempre disponível a colaborar na resolução dos problemas que surjam na sua empresa.
Quem é que são os vossos interlocutores externos? Para além de empresas e hospitais, pode ser um cidadão comum que tem suspeita de os seus sintomas terem origem alimentar? Por exemplo, uma pessoa que chega com uma amostra de um bolo?
Pode ser uma autoridade de saúde, o tribunal, a ASAE, etc.
Mas também pode ser uma pastelaria, um restaurante ou o cidadão comum.

Vamos supor que há uma estirpe de uma determinada espécie que começa a aparecer recorrentemente. Há um mecanismo próprio de comunicação interna com o Departamento de Epidemiologia?
Há uma interligação com o Departamento de Doenças Infecciosas. Neste momento estamos a tipificar todos os isolados de Salmonella, Listeria e Campylobacter.
No ano passado participámos num programa de vigilância veterinária a nível nacional. Foi uma experiência muito boa para nós. Gostámos muito. Conseguimos isolar muitas bactérias, determinar o seu perfil de resistência aos antibióticos e fazer a sua caracterização. Também verificámos o aumento da resistência das estirpes de Campylobacter spp. nas carnes o que permite ter uma noção daquilo que poderá vir a acontecer na saúde humana. Esta experiência mostrou-nos a importância da relação entre a microbiologia animal e a microbiologia humana. Mostra-nos também que o trabalho entre estes três ramos – animal, alimentar e humano – está todo relacionado e que, na verdade, há só uma saúde.

???????????????????????????????
A microbiologia ambiental, alimentar, veterinária e humana acaba por estar toda ligada?
Está tudo interligado embora na prática apenas em casos pontuais se integre as várias partes. Mas é muito importante trabalharmos para ter tudo ligado e para ter as estirpes bem caracterizadas em todas as áreas para podermos estar em condições de avaliar a relação entre elas.
Costumo dizer que os estudos de toxinfecções alimentares, por exemplo, não são um fim. São o princípio para percebermos o que falhou, como podemos agir, o que aconteceu que não demos conta. Porque as boas práticas existem e portanto é importante percebermos o que ocorreu sem termos dado conta, perceber o que escapou ao nosso controlo.
Cada vez mais os alimentos são modificados antes de chegarem ao consumidor e por isso os perigos que aparecem podem ser diferentes. Temos de estar particularmente atentos às embalagens em atmosfera modificada e em vácuo, aos alimentos refrigerados com prazos de validade prolongados, etc , pois ao evitar que microrganismos deteriorantes e alterantes se desenvolvam, podemos estar a criar condições favoráveis ao desenvolvimento de microrganismos patogénicos. É um desafio porque esta área (de conservação de alimentos) está sempre a mudar e nós temos que andar “atrás” destas mudanças.
O Departamento de Alimentação e Nutrição está em rede ou de alguma forma em contacto com o ECDC (Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças) ou outras instituições congéneres?
Os dados alimentares que temos são transmitidos para a EFSA (European Food Safety Agency), directamente ou através da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Temos também, já há 12 anos, uma parceria com a Public Health England (agência de saúde pública inglesa) sendo o INSA a entidade coordenadora do Programa Nacional de Avaliação Externa da Qualidade na área da Microbiologia dos Alimentos. Por isso muitos laboratórios portugueses (e também o Instituto Nacional de Saúde de Angola) participam neste programa e fazem a avaliação externa da qualidade com o INSA.

Costumam publicar os vossos estudos?
Todos os anos produzimos um relatório com os estudos que fizemos e com todos os microrganismos pesquisados indicando todos os resultados obtidos por tipo de alimentos, qual foi a amostragem, em que âmbito foi efectuada e os resultados que obtivemos.
A unidade tem contacto com laboratórios privados do país?
Temos muito contacto através do Programa Nacional da Avaliação Externa da qualidade que se estende a todo o país incluindo, os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Neste momento participam no programa mais de 40 laboratórios.
E funcionam bem?
Anualmente há uma reunião onde é apresentada a globalidade dos resultados nacionais e efectuada uma comparação com os resultados a nível mundial e verifica-se que de um modo geral têm um bom desempenho.
A microbiologia nos últimos anos sofreu uma explosão ao nível das metodologias disponíveis.

Como é que a prática da microbiologia absorve esta revolução?
É bom ter inovação, é um desafio.
Mas em termos legais, é fácil a adaptação e a mudança para novos métodos?
É variável. Tem de ser visto caso a caso. Tem que se ver se são métodos validados ou não.
Se não estiverem validados, demora muito tempo?
Uma validação normalmente demora algum tempo. Validar um método interno num laboratório dá muito trabalho. Envolve uma quantidade enorme de microrganismos, dentro de cada espécie há uma variedade de estirpes enorme, e depois tem que se testar o limite de detecção. Além disso tem de se testar a reprodutibilidade do ensaio em múltiplos testes para ter a certeza que uma na gama total do ensaio a carga que se utilizou é correctamente detectada. Não posso apenas fazer duplicados ou triplicados uma vez que o grau de exactidão que vou exigir é muito elevado. No total, isso implica gastar muito dinheiro. Para um laboratório fazer isso é necessário antes pensar até que ponto esse investimento compensa.
Não há, portanto, muito dinheiro para validar métodos internos?
Custa muito dinheiro. Um laboratório pode fazer uma validação ligeira mas uma validação completa é muito cara e leva muito tempo. Não é fácil. Mas se o método interno for apenas uma pequena alteração de um método de referência, nesse caso é um pequeno passo e isso é fácil de validar. Não tem sentido não validar. É um método interno validado e acreditado mas não é um método ISO (International Standard Organization).
Mas se vão surgindo métodos novos, os métodos de referência, que estão validados, também mudam. Os métodos ISO também vão mudando. Há muitos métodos que utilizam avanços recentes e que estão validados.
Frequenta restaurante e cantinas?
Frequento tudo e como de tudo. E gosto de cozinhar!

Se não trabalhasse num laboratório onde trabalharia?
Tinha que trabalhar num laboratório independentemente do que fosse o laboratório. Nunca fiz muita questão de uma área específica porque sempre trabalhei em áreas muito diversas.
Quando é que entrou num laboratório pela primeira vez?
Sempre tive contacto com laboratórios. Tive sempre um laboratório por perto. Os meus pais tinham um laboratório. Na altura não existiam as regras de segurança que existem agora nem se trabalhava da mesma forma. Lembro-me de a minha mãe estar a medir glicose com um espectrofotómetro e me pedir para eu lhe escrever os resultados. Ver absorvâncias, transmitâncias, curvas de calibração fazia parte do meu dia a dia. Preparar soluções a diferentes concentrações também…
São sete irmãos. Mais algum teve esse bichinho do laboratório?
Dos sete, somos três farmacêuticos. O laboratório foi uma marca muito forte.
Houve alguém que a marcou a nível profissional?
Sim, houve uma pessoa que me marcou muito. A Dra. Berta Maria Correia de Almeida. Quando eu cheguei ao INSA era a responsável por este laboratório. Marcou-me muito porque era uma pessoa muito directa, franca, humana que sabia muito e sempre me apoiou. Marcou-me pela forma como geria o laboratório, como falava com as pessoas e como sabia liderar uma equipa. Conseguia impor um clima de diálogo e ao mesmo tempo ser chefe e orientar-nos para um trabalho honesto, correcto, o mais científico possível.
Mas aqui neste instituto houve muita gente que me marcou. Até me comovo só de pensar.
A Dra. Olinda Basílio marcou-me pelo gosto que tinha num estudo sistematicamente actualizado e nessa altura eu levava-lhe estirpes diferentes que nós queríamos caracterizar. E ela dizia-me: “Margarida, as excepções são: tal, tal e tal…”. E eu pensava: “Tenho tanto que estudar”.
E a Margarida é hoje uma “chefe” com as características das pessoas que admira?
A responsável do Departamento, líder com letra grande, é a Dra. Maria Antónia Calhau que é o porto de abrigo de toda a equipa. Eu tento mas não é fácil. Ninguém nasce líder, aprende-se e tem de se estudar. Há quem tenha mais ou menos jeito mas tem de se estudar. Tento estudar alguma coisa sobre isso, mas às vezes sai ao lado (risos).
Quando eu cheguei ao INSA não havia computadores. Mas havia uma biblioteca. Eu fiquei apaixonada pela biblioteca. Estive dois anos aqui a estagiar e todos os dias ia à biblioteca. E todos os meses lia as revistas que iam chegando e ficava fascinada. Lia tudo, e aquilo fascinava-me. E quando pensei que ia sair, porque ia acabar o estágio, pensei que o que me ia fazer mais falta era a biblioteca. Depois, apareceram os computadores e tornou-se mais fácil pesquisar.
Dá-nos a sensação que a Margarida é apaixonada por aquilo que faz a nível profissional. E para além do trabalho há algo que goste muito e que não tenha nada a ver com microbiologia?
Gosto muito de estar em casa a conversar, de estar com a família. Gosto de fazer coisas muito banais: fazer crochet, cozinhar, limpar a casa. Gosto muito de estar com amigos. Acho que o que eu mais gosto é de estar com pessoas e conversar com elas. Eu costumo dizer, eu não converso muito, mas gosto muito “de estar em conversa” com outras pessoas. Gosto que as pessoas considerem a minha casa como um local onde se está bem a conversar. Quem tem muitos irmãos gosta de estar muito rodeado. E depois as pessoas são todas diferentes e isso ajuda muito porque havendo pessoas com outras formas de pensar podemos ver as coisas por outro prisma, e até pode ser que tenham alguma razão. Gosto tanto de conversar que às vezes me dizem “não discutas tanto” mas eu gosto de contrapor ideias.
A Margarida provavelmente no seu dia a dia acaba por contactar com muita gente com formação em microbiologia. Como é que vê hoje em dia a formação superior em microbiologia? Acha que as universidades têm sabido avançar com o tempo ou que há áreas em que a microbiologia ainda é ensinada de uma forma muito tradicional e conservadora?
Depende. Temos várias pessoas aqui e generalizar é perigoso. A mim chegam-me casos isolados. Parece-me que, por vezes, há alguma dificuldade na interligação dos resultados. Faltam por vezes algumas bases mais clássicas que nós sabíamos na ponta da língua e que para os jovens de hoje é mais difícil.
E o que é que os estudantes de hoje têm de bom que não tinham noutros tempos?
Têm uma capacidade de pesquisa e de comunicação fenomenal! Os jovens de hoje sabem comunicar muito bem. Eu quando fazia apresentações, ao princípio, olhava para as pessoas e não conseguia pensar. Só conseguia ouvir a minha voz. Era uma coisa horrível.
Acha que é importante gostar-se do que se faz, para se fazer bem?
Não! Eu não gostava do que vim a fazer. E aprendi a gostar. Acho que as pessoas não podem ir com ideias pré-formadas. Têm que pensar: “se eu vou fazer isto, tenho que fazer o melhor possível, tenho que me dedicar, tenho que me empenhar o melhor que eu sei”. Se fizerem isso, acho que no final é impossível que não venham a gostar do que fazem.
No final gostam imenso…
Risos. No final gostei imenso!

Que conselho é que daria aos mais jovens que estão a iniciar a sua carreira?
Estudem, dediquem-se e mesmo que haja uma área que não gostam, se estudarem e se se dedicarem, vão acabar por gostar.

Porto, 25 de Outubro de 2013
Raquel Sá-Leão e Célia Manaia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 29/12/2013 by in Magazine SPM and tagged .

Navegação

Clique aqui para acesso directo a todos os conteúdos de:

Adicione aqui o seu email para receber as notícias da SPM.

Com o apoio de:

%d bloggers like this: