Sociedade Portuguesa de Microbiologia

Portuguese Society of Microbiology

À Conversa com Mónica Cunha

Mónica Cunha é actualmente investigadora no Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV, IP). A sua incursão pela Microbiologia começou há uns anos quando, recém-licenciada em Engenharia Química, se apaixonou pelos micróbios, pelos seus genes e estranhos modos de vida. Seguiram-se o Mestrado e o Doutoramento, o Pós-Doc e outros novos desafios, mas os micróbios nunca mais saíram da sua vida. Gosta muito de investigar e de tudo o que tenha a ver com investigação, sobretudo se sabe que desse modo pode contribuir para uma sociedade melhor. Recebeu-nos no seu gabinete no INIAV e ao longo de duas animadas horas falou-nos do seu gosto pela investigação e, sempre com grande optimismo e confiança, deixou-nos também alguns desabafos sobre os desafios de se ser investigador.

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Como é que uma Engenheira Química chega à Microbiologia?

Não foi complicado. Ainda antes de ter terminado o curso comecei a dar aulas no ensino secundário e percebi imediatamente que aquilo não era suficiente para todos os planos que eu tinha feito.

Decidi inscrever-me no Mestrado em Biotecnologia, no Instituto Superior Técnico (IST). Fui aceite e ingressei no mestrado continuando simultaneamente a dar aulas no liceu.

A chegada à microbiologia teve a ver com as aulas de microbiologia molecular dadas pela Professora Isabel Sá Correia durante o mestrado. Era um desafio conseguir acompanhar. Eu era engenheira química e tinha um perfil que não era nada especializado na área da microbiologia. Era mais direccionado para a engenharia bioquímica. Foi nessas aulas que decidi que na componente da dissertação teria que enveredar pela microbiologia molecular. Era realmente a área onde eu achava que ia ganhar mais valências tendo em conta o meu background.

Quando é que percebeu que queria ser investigadora?

Foi um processo que se fez naturalmente, já depois da licenciatura. Não foi um chamamento de infância. Eu sempre tive muito interesse pela ciência. Aos 16 anos fiz uma viagem ao Canadá e lembro-me de ter ido à Toronto Metro Library que era uma biblioteca fantástica, em comparação com o que nessa altura tínhamos a nível nacional. Lembro-me de ter ficado fascinada com tudo o que eram livros de genética e de manipulação molecular. Já na altura me interessava, mas ainda não sabia que queria fazer investigação. Quando tirei o curso de engenharia, pensei que iria trabalhar na indústria, até porque eu sempre gostei muito de máquinas. Mas nunca tive uma idiossincrasia num só sentido. Sempre tive interesse por várias áreas.

O gosto pela investigação foi quase um processo que se construiu a partir do momento que fui fazer mestrado e comecei a trabalhar no âmbito da dissertação em microbiologia molecular. Percebi que aquilo me dava um gozo enorme. Sobretudo porque trabalhei numa área muito aplicada. Era um trabalho de epidemiologia molecular, com grande contacto com a vertente hospitalar, com o Hospital de Santa Maria. No âmbito do mestrado realizei a genotipagem de uma série de isolados de Burkholderia cepaciaobtidos de doentes com fibrose quística. Estudava-se a sua epidemiologia molecular e percebia-se como é que esta se articulava com o historial de contacto dos doentes, porque estas bactérias são transmitidas entre doentes. Era gratificante perceber como é que o meu trabalho poderia levar à implementação de melhores práticas num hospital.

O que a motivou para a investigação foi haver uma aplicação?

Foi essencialmente haver uma aplicação. Isso tem-me conduzido sempre ao longo das escolhas que tenho feito. É importante percebermos que aquilo que fazemos tem impacto, que vai beneficiar alguém ou que vai ter um impacto social ou económico. Se for as duas em simultâneo melhor. Mas tem que haver consequências a médio prazo…


A investigação fundamental às vezes também tem grandes consequências, mas não são no imediato …

Sim, mas eu tenho essa necessidade de me agarrar à realidade e de ver que as coisas têm impacto na vida das pessoas.

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De algum modo a vinda para o INIAV acaba por ter também esse sentido, porque é uma investigação muito focada…

Sim, é até mais focada do que aquela que eu desenvolvia no Técnico. Mas, a vinda para o INIAV não foi só por isso….

Aqui desenvolvemos métodos de diagnóstico, colaboramos no controlo analítico associado aos planos de controlo oficiais. Nesta unidade estratégica em que me insiro, a de produção e saúde animal, apoiamos analiticamente a Autoridade Veterinária Nacional a nível da prevenção, diagnóstico e erradicação das doenças dos animais. Isto tem impacto tanto na saúde e bem-estar animal, como também ao nível de saúde pública ou na transacção de bens de origem animal. Há um impacto directo ao nível da competitividade das agro-indústrias, da saúde animal e da saúde pública.

É uma área em que há necessidade de forte cooperação internacional, sobretudo a nível europeu…

Sim, como funcionamos como Laboratório Nacional de Referência, estamos envolvidos em ensaios de harmonização, colaboramos em ensaios de proficiência com todos os outros Laboratórios Europeus de Referência para estas áreas, de sanidade animal e vegetal e de segurança alimentar. Há de facto uma grande articulação e harmonização de procedimentos a nível europeu.

Isto tem impacto num país que se quer afirmar como destino turístico e que quer aumentar as exportações. Tudo o que se relaciona com segurança alimentar, transacção de bens de produção agrícola e animal, e de saúde pública tem que estar assegurado. Sobretudo nesta fase em que precisamos de crescer e encontrar marcas diferenciadoras. Neste contexto de grande dificuldade, este é o momento dos Laboratórios de Estado se afirmarem. Têm responsabilidades acrescidas na transferência de conhecimento e de tudo o que é produto da sua actividade, contribuindo para um aumento de competitividade e inovação para a sociedade e para os mercados. Para isso é muito importante haver contacto directo com associações de produtores e haver criação de valor.

E acha que há boas condições para isso?

O país atravessa um desafio brutal. Os Laboratórios de Estado, tendo dotação do orçamento do Estado, são, logo à partida, muito penalizados. A máquina administrativa é muito menos ágil do que nas instituições académicas. Há toda uma série de procedimentos que são muito mais pesados do que noutras instituições.
Embora parte dos serviços do INIAV se encontrem ainda em estruturas degradadas e estejam há alguns anos para mudar de instalações, nos últimos anos conseguiu-se melhorar algumas infra-estruturas, equipamentos e recursos humanos. De facto, tem-se conseguido angariar boas condições. Agora há que rentabilizá-las e flexibilizar determinados procedimentos que neste momento nos limitam grandemente, para que se consiga passar à fase seguinte. A fase seguinte passa por capitalizar todo o investimento que Portugal tem feito a nível de investigação e de infra-estruturas. Cabe ao INIAV valorizar, proteger e promover os recursos naturais, nomeadamente os recursos animais e vegetais. O INIAV dispõe de infra-estruturas e serviços que lhe conferem um carácter único e específico, nomeadamente dispõe de colecções de culturas muito alargadas, bancos de germoplasma vegetal e animal, bancos de sementes, campos de melhoramento de plantas, entre outras valências, que fazem parte do património natural nacional e cuja continuidade tem de ser assegurada. Faz parte da sua missão.

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Tem um contrato do Ciência 2008 por cinco anos. Há perspectivas futuras?

Neste momento não tenho quaisquer garantias. Acho que o trabalho que eu aqui tenho desenvolvido trouxe mais-valias para o laboratório e é reconhecido. A continuidade não depende dos dirigentes intermédios da instituição. Vai depender das políticas que estão a ser seguidas para o país em termos de ciência e tecnologia. Neste momento há toda uma série de procedimentos que estão a ser conduzidos no sentido de coleccionar pessoas com determinado perfil. O meu receio neste âmbito é que quando se fala de excelência no concurso Investigador FCT se fala de um conceito muito vasto. Temos que perceber que há vários tipos de investigação. Há a investigação fundamental em que se produz determinado tipo de indicadores, o número de publicações, os factores de impacto, o número de formandos, etc. Neste momento a avaliação da excelência está a ser feita muito com base neste tipo de indicadores.

Quem faz investigação mais aplicada e está num Laboratório de Estado tem responsabilidades acrescidas. Temos muitas outras actividades que temos que ter em simultâneo, de administração, de certificação, de acreditação. Nós continuamos a produzir indicadores, que são internacionalmente reconhecidos, mas temos outras tarefas que não podemos descurar e no contexto actual isso não é valorizado. Era importante haver instrumentos de financiamento diferentes para investigação fundamental e para investigação aplicada. Nós concorremos aos concursos da FCT para projectos de investigação e conseguimos angariar verbas. Neste momento temos algumas dificuldades, tal como as outras instituições, na execução desses projectos. Mas para sermos competitivos em termos internacionais, para concorrer a projectos europeus e para arranjar financiamento fora de Portugal, acho que o INIAV e outros Laboratórios do Estado, têm se posicionar melhor para integrarem consórcios de investigação que sejam ganhadores.

Em termos de políticas de recursos humanos não há dúvidas que o INIAV gostaria de se renovar. Somos 700 funcionários e há muitas pessoas a reformar-se anualmente. Há previsões de que até 2017 o laboratório perca cerca de quarenta por cento dos seus recursos humanos. Mas têm que ser criados instrumentos de financiamento e não pode ser só com posições conquistadas ao abrigo do Investigador FCT, que claramente não é um programa feito a pensar em investigadores que trabalham num Laboratório de Estado. Estes têm necessariamente que ter um perfil diferente inerente às obrigações e funções que desempenhamos.

Se durante algum tempo pudesse gerir a Ciência e a Tecnologia em Portugal, o que mudava?

Acho que é necessário criar instrumentos de financiamento diferenciados. Não no sentido de baixar a qualidade dos investigadores e dos projectos, mas porque há tipos distintos de investigação. Como a nossa, em que tem que haver uma grande ligação às necessidades sectoriais. No caso da investigação aplicada no contexto de Laboratórios de Estado, temos responsabilidades no aumento de competitividade, inovação, transferência de conhecimento para os operadores do sector, agro-indústrias e agro-pecuária. Portanto, para se poder fazer investigação nesta área, deviam existir fontes de financiamento diferentes, não só para a própria investigação mas também para os recursos humanos.

Quando fez a transição do Técnico para aqui, teve que refazer a maneira de pensar ciência e de programar as actividades? Como foi esse processo?

Não foi difícil porque depositaram uma grande confiança em mim. Foi-me dada muita liberdade. Esse voto de confiança foi responsabilizador e altamente motivante. Eu fiz investigação até ao nível de pós-doutoramento no Técnico e estava numa posição muito confortável. Não tinha que ter grandes preocupações em angariar financiamento e havia uma máquina de gestão que estava assegurada. Portanto, quando cheguei aqui, houve algum choque de procedimentos. É tudo muito mais demorado e muito mais burocrático. Isso leva a que nos adaptemos e obriga a que façamos um melhor planeamento. O Laboratório, sendo de Estado, põe à frente tudo o que é controlo analítico e planos oficiais – tudo isto tem que estar assegurado antes das actividades de investigação. Isto obriga a que sejamos muito criteriosos com tudo o que encomendamos e com tudo o que fazemos. Acho que já era criteriosa no Técnico, mas aqui agucei essa capacidade.

Quando entrei aqui, o contexto de contenção que então existia e que se tem vindo a agravar, criou em mim um grande sentido de responsabilidade como investigador responsável. Embora tenha projectos financiados com investigador principal, opto por não aceitar pessoas se não conseguir garantir que vão poder realizar o seu trabalho nas melhores condições. Acho que estas competências me fizeram crescer como investigadora e como pessoa.

Ao ouvi-la falar, está implícito que o INIAV tem um papel importante para sociedade. Acha que o cidadão comum tem essa noção?

Acho que as pessoas não têm a noção de quais são as funções que asseguramos. Quando vão ao supermercado e compram os bens alimentares, ou quando vão ao restaurante, não têm noção de todo o trabalho que está por trás. Por exemplo, penso que muitas pessoas não sabem que há uma entidade que é a Direcção Geral de Alimentação e Veterinária que delineia planos de vigilância, controlo e erradicação de uma série de doenças dos animais, e que se traduzem num aumento de segurança alimentar. E é de realçar que em termos de segurança alimentar, estamos entre os melhores do mundo!

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Dos Laboratórios de Estado, o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge é o que tem maior visibilidade. O INIAV não tem, até porque surgiu em 2012 devido ao PREMAC, um plano de redução da administração central, e que vem na sequência do INRB (Instituto Nacional dos Recursos Biológicos), criado em  2007, que associou o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária, o Laboratório Nacional de Investigação Agrária e o Instituto das Pescas e do Mar. Estas alterações a nível de orgânica também não facilitam o reconhecimento da instituição. Não basta fazer ciência e desenvolver actividade técnica, é necessário também dar a conhecer o que se faz e saber comunicar. Nesse aspecto acho que o INIAV ainda tem um longo caminho a percorrer – conseguir comunicar e transmitir para a sociedade toda a sua actividade e toda a importância que tem.

Um instituto destes também pode ter como papel educar e formar …

Sim, nós também temos um papel a nível da educação e da formação. Ao nível da educação, através da divulgação de todas as nossas actividades e da sua importância. Ao nível da formação, temos formandos de vários níveis, estagiários, mestrandos, doutorandos, investigadores de pós-doutoramento. Temos é que ter um crivo muito apertado e ser muito criteriosos no enquadramento dos trabalhos no âmbito de projectos financiados. A minha grande preocupação é não limitar a formação das pessoas pelo contexto que atravessamos, que é de grande limitação. Sabemos que os fundos primeiro têm que estar disponíveis para tudo o que é controlo analítico, no âmbito das nossas funções de Estado, e só depois podemos assegurar os outros trabalhos. Nesse aspecto as instituições académicas estão favorecidas, até porque conseguem angariar mais facilmente pessoas. Nós não podemos conceder graus académicos. Mas acho que temos obrigação de contribuir para a formação das pessoas, sobretudo nesta perspectiva aplicada.

O que gosta mais e menos na investigação científica em Portugal?

Gosto muito de investigação e hoje não tenho quaisquer dúvidas que, apesar de não ter sido um sonho de criança, me sinto muito realizada com o que faço. E espero ter a oportunidade de continuar a trabalhar naquilo que gosto e de dar o meu contributo.

O que eu gosto menos é quando o mérito não prevalece nas avaliações. Porque de resto acho óptimo, os investigadores entrarem em concursos competitivos.

A indefinição actual obviamente que traz preocupação, traz angústia e pode trazer também desmotivação. Neste momento não é claro qual o rumo que a investigação vai ter em Portugal.

De resto há todo um conjunto de funções associadas à investigação que gosto de fazer. Gosto de definir estratégias, escolher os recursos humanos certos, escrever as propostas de investigação mais aliciantes, concorrer a concursos competitivos. Mesmo as vertentes mais de gestão e de administração, não me desagradam. Alem disso, a escrita das publicações, dar significado biológico aos resultados que temos no laboratório, tudo isso me dá gozo…

Lida bem com a incerteza e instabilidade que actualmente se sente no âmbito do financiamento para a ciência?

Não acho que seja prejudicial à minha actividade do dia-a-dia. Acho que consigo lidar bem com essa incerteza, embora preferisse que não existisse. Acho que no contexto actual em que estamos, esta incerteza não se cinge à investigação. Neste momento há incerteza nos mais variados sectores de actividade e nas mais variadas carreiras. A ideia do emprego vitalício existe para muito poucas pessoas. Eu tenho todo um historial de bolsas, tive bolsa de mestrado, de doutoramento, de pós-doc. A estabilidade nunca esteve garantida, já me habituei a esse contexto. Preferia não ter este tipo de preocupações, mas dizer que interfere no meu dia-a-dia, não interfere.

Na sua opinião, até que ponto é que a actual situação vai fazer com que alguns investigadores que atingiram todos os objectivos, que são excelentes, acabem por abandonar a ciência, pelo menos em Portugal?

Acho que isso vai mesmo acontecer e com muitas pessoas. Aqui no INIAV houve várias pessoas que entraram com o Ciência 2007, atingiram todos os objectivos e tiveram de sair, pois os seus contractos não tiveram continuidade. São pessoas que trouxeram mais-valias para a instituição, trouxeram uma cultura diferente. Vinham de instituições académicas e trouxeram a noção de que é preciso produzir indicadores, que não basta fazer, mas mostrar que se faz. Estas pessoas não viram as suas carreiras continuadas ou estão numa espécie de limbo à espera que a situação se decida. Há o risco real de se perderem pessoas que têm um contributo muito importante a dar não só para as instituições mas para o país e para a ciência em geral.

Pausa

Pensar as coisas dessa forma pode ser desmotivante. Eu, como sou optimista por natureza, acho que vou encontrar alguma saída. Penso que Portugal não pode, depois de um investimento de décadas, não assegurar continuidade.


Já alguma vez pensou em ir para fora?

Na minha situação actual, com três filhos ainda pequenos, não seria muito fácil. Já pensei nisso várias vezes mas esse pensamento não me atravessa a mente todos os dias. Quero acreditar que não vai ser necessário.

Em que é que a sua investigação se tem focado mais recentemente?

A investigação que fazemos no INIAV nunca pode ser desagregada da missão e das atribuições do Laboratório. Neste momento a investigação que fazemos tem como objectivo desenvolver métodos rápidos de diagnóstico de doenças infecciosas de animais, algumas zoonóticas que se transmitem ao Homem, nomeadamente a tuberculosa bovina. Esta é uma doença cujo diagnóstico laboratorial é muito demorado e por isso estamos a envidar esforços no sentido de fazer um diagnóstico mais rápido recorrendo a técnicas de biologia molecular. Tenho também projectos na área da genómica funcional que visam a identificação de biomarcadores para o desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico e também de vacinas. No caso da tuberculose, por exemplo, pesquisamos biomarcadores para diferenciar entre tuberculose activa e tuberculose latente. Também tenho trabalhado na avaliação sanitária da fauna silvestre. Estes estudos visam mitigar algumas doenças que na Península Ibérica são endémicas, como é o caso da tuberculose bovina que existe nas espécies domésticas e que se transmitem também à fauna silvestre, pondo em causa a biodiversidade. Há um plano de erradicação da doença em espécies domésticas e neste momento a doença existe na fauna silvestre nomeadamente em javalis e veados. Temos feito estudos de epidemiologia molecular que demonstram que há transmissão de Mycobacterium bovis das espécies domésticas para as espécies selvagens e vice-versa. A transmissão pode ser por sobreposição de habitat e por se alimentarem em zonas comuns. A investigação passa, não só por identificar as vias de transmissão, como também por propor novas medidas de intervenção, nomeadamente ao nível das explorações e na gestão cinegética das espécies afectadas para minimizar a transmissão entre elas.

Está neste momento envolvida na preparação de um livro sobre Abordagens Moleculares em Veterinária, do qual é co-editora. Como está a ser essa experiência?

(NE: Título provisório: Molecular Diagnosis in Veterinary Laboratory Practice, Mónica V. Cunha, João Inácio (Eds), Springer, a ser lançado em 2014)

Tem sido uma experiência fantástica. Nós (eu e o João Inácio) tivemos este convite da editora Springer e tínhamos ideias bem claras sobre como gostaríamos que este livro fosse constituído mas depois não sabíamos se os investigadores a convidar iriam aderir bem. Mas temos tido uma aceitação muito boa. É um livro com 34 capítulos, uma obra muito vasta e que acabou por interessar ao Director da Organização Mundial de Saúde Animal, que vai escrever o prefácio do livro. Tem sido um desafio grande em que nos temos empenhado muito e as expectativas são muito boas.

Como surgiu a ideia deste livro?

Surgiu da necessidade que sentimos de dar um contributo para esta área em que tradicionalmente os avanços da biologia molecular levam mais tempo a ser implementados do que por exemplo na área da saúde humana. Achámos que havia todo o interesse em criar um projecto que visasse abordar as metodologias de diagnóstico molecular desde as mais simples às mais complexas, das mais baratas às mais caras, incluindo também as tecnologias emergentes nomeadamente as plataformas de elevado rendimento (high throughput technologies). Sentimos que a bibliografia que estava disponível não dava uma visão alargada de tudo o que existe e de como pode ser aplicado na melhoria do bem-estar animal e no aumento da produtividade. Foi essa a nossa preocupação enquanto editores, compilar essa informação numa única fonte.

Ensinar ou investigar?

Gosto da complementaridade de ambas as coisas. É bom ensinar e saber comunicar. As aulas são um desafio para se conseguir comunicar aquilo que sabemos. Aliás, eu cheguei à microbiologia porque alguém teve essa capacidade de comunicar e lançar desafios. Quem ensina deve ter a capacidade de saber comunicar aquilo que faz, às vezes já num plano muito complexo, e conseguir simplificar a ponto de se tornar palpável. Essa vertente tanto se atinge dando aulas como tendo orientandos.

Há alguém na ciência que a tenha marcado?

Sem dúvida que a pessoa que me marcou mais foi a Professora Isabel Sá-Correia. Foi minha orientadora de Mestrado, Doutoramento e Pós-Doutoramento. Marcou-me sobretudo pela sua capacidade de trabalho, exigência, rigor e pela sua capacidade de olhar para os resultados e lhes dar um significado biológico.

No meu percurso escolar houve também professores que me marcaram pela sua capacidade de questionar. Lembro-me da Professora Helena Martins, que foi quem mais me marcou até chegar à universidade. Foi minha professora de Português no 8º e 9º ano e recordo-me de dar Gil Vicente de uma forma ímpar, absolutamente provocadora.

Como é que concilia a vida de investigadora com a vida familiar?

É necessária uma logística muito bem planeada. Não é fácil. Quando estou a trabalhar tento trabalhar o máximo possível, e quando estou com os meus filhos, estou com eles de corpo e alma. O que acontece é que, por vezes, ao final do dia depois das tarefas domésticas e quando as crianças já estão a dormir, fico a trabalhar até mais tarde.

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Tem hobbies?

Gosto de ouvir música de vários géneros. Gosto muito de música clássica e os meus filhos estão todos a aprender um instrumento, coisa que eu não fiz.

São instrumentos diferentes?

Neste momento não. Já estiveram no piano, no violoncelo e agora estão a aprender saxofone que é um instrumento mais cool (risos).

Também gosto de ler, viajar… e comer! Gosto muito de ir a um bom restaurante, com boa companhia e desfrutar o momento.

Se não fosse cientista o que seria?

Passei por várias fases desde querer ser bailarina, como todas as meninas, a querer ser piloto de aviões. Como tenho uma miopia acentuada, esta última hipótese nunca se afigurou como real. Mas se não fosse investigadora, e não tivesse essa limitação física, provavelmente seria piloto de aviões.

O que diria aos jovens de hoje que gostariam de vir a ser cientistas?

Para se ser cientista é necessário gostar-se muito daquilo que se faz. É importante ter uma grande resiliência e perceber que não há nada garantido e que nós temos que lutar por aquilo que queremos.

Gosto de pensar nas diferenças que existem hoje quando comparo com os meus tempos de criança. Hoje em dia estão criadas as condições para que todos possam experimentar, independentemente de se vir a ser cientista ou não. Todos os museus têm um serviço educativo, há muita oferta. As crianças de hoje têm muitas oportunidades de se aproximar da ciência e de explorar que não existiam quando nós tínhamos a idade delas. E ainda assim fizemos o nosso percurso. Penso que vivemos tempos diferentes e acredito que isso se vai reflectir positivamente na ciência em Portugal.

Lisboa, 5 de Maio de 2013

Célia Manaia e Raquel Sá-Leão

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This entry was posted on 30/07/2013 by in Magazine SPM and tagged .

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